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Raia
do absurdo
Com velocidade máxima de 320 km/h, a Suzuki Hayabusa chega a
um limite inimaginável
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Por
Geraldo Simões
Fotos de Luca Bassani |
A
Suzuki GSX-R 1300 tem o nome de batismo inspirado numa ave de rapina: o
falcão hayabusa. Segundo os ornitólogos, esta é a ave mais veloz do mundo e
sua refeição predileta são outras aves. Quer dizer: o departamento de
marketing da Suzuki batizou essa moto de Hayabusa querendo dar a entender
que ela é mais veloz e vai devorar a Honda Blackbird - "pássaro preto" em
inglês, testada em Autoesporte no 394. O pior (para a Honda) é que
conseguiram.
Existe uma cultura estranha entre os motociclistas. A velocidade é a
característica mais importante para julgar o nível de sedução de uma moto.
Isso explica essa disputa pela moto de série mais veloz do mundo. E vem mais
por aí, porque a Kawasaki já preparou a ZX-12 Ninja, que promete ser ainda
mais veloz. Segundo fontes oficiais, ela até agora não foi lançada porque
era preciso desenvolver rodas e pneus de medidas absurdas.
Como é andar de moto a 300 km/h? É mais ou menos como ser sugado por um
gigantesco aspirador de pó. A visão periférica fica tão apertada quanto num
canudo, a respiração quase pára, o som do vento no capacete fica tão alto -
apesar da carenagem - que o ronco do motor vai sumindo e preciso controlar
as rotações pelo conta-giros. O medo deixa de ser uma sensação imaginária e
torna-se bem real e presente. Não dá para evitar pensamentos como "e se
quebrar esta roda?" Para evitar esse tipo de temor, volto minha mente para
as características desta deliciosa Supersport Touring.
Eletrônica
Para receber o cetro de moto mais veloz do mundo, a Suzuki produziu um motor
de quatro cilindros em linha, refrigerado a líquido, com 1.298 cm3, que
desenvolve potência de 172,6 cavalos a 9.800 rpm. Sua principal
característica é a fluidez, também conhecida como distribuição de potência,
capaz de levar o motor, em sexta marcha, dos 2.000 até 11.500 rpm sem sinais
de indecisão. Outra faceta deste propulsor é a rapidez com que sobe de
giros, como se fosse um dois-tempos. Traduzindo: é um motor agradável, que
dá muito prazer de pilotar, tanto numa pista como nas ruas.
Volto o pensamento para dentro da carenagem. Esta Suzuki tem um estilo bem
particular. Dizer se é feia ou bonita é um julgamento que deixo para você,
leitor, mas posso adiantar que ela foi inteiramente desenvolvida em túnel de
vento, recebendo um estudo aerodinâmico voltado para altas velocidades.
Felizmente pude comprovar isso na prática, porque mesmo acima de 300 km/h a
frente fica tão presa ao chão que pareço estar caminhando sobre trilhos. A
preocupação com a penetração aerodinâmica tem mais uma finalidade: melhorar
o sistema de alimentação. O ar é captado na frente da carenagem, ao lado dos
piscas, e pressurizado por meio de tubos até a caixa de filtro de ar sob o
tanque. Quanto maior for a velocidade de passagem do ar, melhor será a
"respiração" do motor, resultando em mais potência.
Para colocar as tomadas de ar no ponto de maior pressão aerodinâmica, foi
preciso criar um farol de formato esquisito, que deixou a Hayabusa com cara
de ciclope. As
lâmpadas halógenas com lentes de aumento fazem muito bem o papel de
iluminar o caminho. A eletrônica está presente na alimentação e ignição,
tudo gerenciado por uma central que "lê" parâmetros climáticos e do motor
para injetar a quantidade ideal de mistura em cada cilindro e na hora certa.
Cada cabo das velas conta com uma bobina integrada. Aliás, este sistema está
cada vez mais comum nas motos esportivas.
Doce delírio
Não sei quanto tempo fiquei acima de 300 km/h, porque a noção de tempo fica
esmaecida, mas chegou o momento de frear. O que existe de mais potente em
termos de freios está instalado na Hayabusa: são dois discos enormes de 320
mm na frente, "mordidos" por pinças de três pistões contrapostos. Na
traseira, apenas um disco simples, pois o freio posterior é pouco usado
nessas grandes e pesadas (215 kg) esportivas.
A
suspensão dianteira é por garfo invertido. Esta tecnologia funciona muito
bem nas pistas, onde o asfalto é liso como um carpete, mas para uma moto de
uso urbano-estradeiro isso representa respostas muito rápidas dos
amortecedores. O sacrifício de parte do conforto é largamente compensado na
hora que chegam as curvas. É difícil fazer comparações porque as motos -
assim como os carros - estão cada dia mais parecidas, mas posso garantir que
a Suzuki Hayabusa apresenta-se um pouco mais estável que sua concorrente
direta, a Honda Blackbird. A líder mundial preferiu investir mais
no conforto.
Pode-se pilotar a Hayabusa como se fosse uma esportiva, e isso ficou
evidente quando fomos para Interlagos fazer as fotos destas páginas. Nas
primeiras passagens até me assustei com a facilidade com que ela reage
prontamente aos comandos e abusei da largura do pneu traseiro (190/50-17).
Na saída da curva, adiantei o ponto de aceleração até sentir a traseira
escorregar e recuperar a aderência. Fiz isso várias vezes para ver se o
fotógrafo conseguiria registrar uma derrapagem controlada. Mas o juízo
recomendou parar com essas brincadeiras - afinal, estava montado num
brinquedo de R$ 33.900 e não lembrava de o pessoal da Suzuki ter comentado
qualquer coisa sobre seguro!
Com uma geometria de suspensão e ciclística impecáveis, a Hayabusa consegue
a proeza de dispensar o amortecedor de direção. Pode-se acelerar com vontade
que a frente fica lá, "quietinha da silva"... E quando falo acelerar, isso
significa fazer de 0 a 100 km/h em 2,8 segundos! Mesmo com todo esse
desempenho, a Hayabusa é econômica, chegando a fazer até 18 km/litro.
Quanto a pilotar a 300 km/h, resta apenas uma perguntinha: para que uma moto
que corre tanto se a Polícia Rodoviária espalhou radares por tudo que é
estrada?
Agradecemos ao site
www.autoesporte.com.br por ter gentilmente concedido esta
reportagem. |